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sábado, julho 23, 2011

Lucian Freud


Não há nada mais aviltante que o mau jornalismo, esta ânsia de narrar o inarrável, de contar algo quando nada há para dizer, o deserto de ciência numa época que dizem ser silly, que condena os jornalistas a inventar conceitos para ocupar as gordas horas de telejornais e as letras imprensas da imprensa! Abjectamente, ouvi algures por aí que Lucien Freud tinha morrido!!! Como se enquanto existir um quadro Freud possa morrer, como se um escritor não fosse imortal nas suas palavras, como se enquanto a música tocar numa qualquer rádio se possa dizer que o cantor morreu!
Inspirado no seu homónimo tio, Freud foi quem melhor pintou as mulheres, que as viu como gosto de me ver a mim e a os outros, o artista que guardou em si a sapiência de perceber que todos somos igualmente vulgares e desinteressantes nas nossas qualidades, que as nossas qualidades são aborrecidas, que aquilo que nos torna verdadeiramente únicos e especiais, a razão que vale a pena amar e ser amado, são os nossos nano defeitos, as nossas falhas, as nossas imperfeições! 
A mulher que dorme desnuda sobre a cama, não está refém de ginásios, de dietas hediondas, de botox, de plásticas,  da frágil superficialidade do acessório, de quem venera o desnecessário e se aborrece perante o pertinente: a mulher que descansa sobre a cama, dorme o justo sono dos satisfeitos, é uma mulher inteira que se ama e entrega, ciente dos seus defeitos, mas apaixonada pelas suas virtudes!

quinta-feira, julho 14, 2011

Swallows The Poison Apple, por Paula Rêgo


Olá! Gostava de te lançar um desafio!
Como apreciador de arte, gostava da tua opinião sobre as obras de Paula Rêgo. Considero-a um ser à parte...como quase todos os artistas, de resto. Mas ela, exerce sobre mim um fascínio avassalador. Não percebo nada de arte, não tenho qualquer capacidade de analisar as técnicas dos pasteis, dos acrílicos ou das aguarelas...apenas me deixo invadir por sensações grotescas quando observo algumas das suas obras. Acho incrível a semelhança entre que ela pinta e o que Freud teoriza...admiro a mistura de personagens míticas, baseadas em romances e contos de fadas, mas tantas vezes reais. A coragem de tocar na ferida, de mostrar o que o mundo tenta e tentou esconder durante séculos. A repressão feminina, numa sexualidade vivida tantas vezes em gritos silenciosos. A cara de fetos abortados e escondidos num mundo hostil quase perverso da condição humana. Subterfúgios emaranhados nas entranhas da vida em que animais se transformam em seres humanos; em que bailarinas ensaiam passos desconcertados em corpos rudes e gastos pelo calor de trabalhos pesados.
Fico a pensar se este não é também um lado perverso meu escondi, enraizado e recalcado :) 

Post Scriptum: quando tudo já foi dito, resta o silêncio de quem já nada pode acrescentar..

terça-feira, julho 12, 2011

O velho guitarrista cego, 1903, por Picasso...


Não desnudo a minha privacidade se partilhar com quem tem a bonomia e paciência de me ler, que descobri Picasso pela mão do meu primeiro quase amor, do primeiro encantamento adolescente, as partilhas nervosas de quem quer descobrir um mundo inteiro num único dia, num tempo em que as certezas ainda são absolutas e as verdades eternas enquanto duram! Mas confesso hoje, sem a vergonha que me fez escamotear no passado, por maior e esmagadora que seja a blasfémia, que Picasso nunca me encantou! Picasso para mim sempre foi aquela deslumbrante mulher, com curvas e contracurvas, com rosto lindo, com olhos divinos, aquela mulher que se lhe reconhecem todos os méritos e os mais desejados pecados, mas... não obstante ser tudo, sinto-a vazia com um nada! Porque, felizmente, na vida e nos amores, não há nada mais racional que o irracional, as certezas que temos sem que nada as comprove, apenas, porque sim! 

Mas se Picasso não me encanta, este seu velho guitarrista esmaga-me, sendo uma obra absolutamente excepcional, sem dúvida uma das pérolas do século XX! Apaixono-me pelas cores sombrios, pouco típicas no mestre, em meados da sua fase azul; encanto-me pela forma como o velho toca sobre si mesmo!
Por ignorância minha não consigo ver o mendigo que toca na rua para obter subsistência, nem tenho a inteligência erudita para ler no quadro a metáfora do artista num imenso conflito entre a sua arte e o comodismo burguês, a luta interior entre a pureza da arte e o mercantilismo das relações interpessoais! Sou uma mente orgulhosamente simples e vejo apenas um velho melancolicamente a tocar de si e para si, um homem que apesar de cansado de tocar para não ser ouvido não se derrota na amargura impotente e, até que os dedos lhe doam, não desiste de se entregar às suas paixões e tocar a sua música! Seja ouvido por uma multidão, quer as notas de música se percam em ruas desertas, ciente das suas certezas! 

sábado, julho 09, 2011

Dance, 1963 por Marc Chagall

Posso morrer estúpido - e nesse coerente como vivi - mas vou eternamente acreditar que Chagall é o mais romântico de todos os pintores!
Sendo ele próprio o espelho da mundividência, um verdadeiro cidadão no mundo, que nasceu russo, morreu francês, que se refugiou nos estados unidos orgulhoso da sua condição judia, depois de se ter apaixonado pela revolução russa, teve a grande coerência da incoerência daqueles que nunca deixam de procurar respostas! 
Não é por acaso que Chagall é azul, não fosse a sua obra imbuída de um sereno sentimento de procura, uma certa melancolia por vezes quase cobarde, mergulhada na serenidade quieta da fé, numa placidez perante os imponderáveis, um acreditar quando todos duvidam! 
O quadro que vos ofereço é um encantamento recente, daqueles que nos despertam, mas que depois se esfumam, como ondas cansadas que morrem na areia de uma praia desabitada numa noite quente de verão: vejo nela a diversidade, pessoas que dançam de si e para si, outras acompanhadas, outras que me parecem terrivelmente solitárias no meio de imensa gente, pessoas que dançam a sua própria música, com sons e gestos diferentes, com tonalidades próprias de quem não se limita a sentir os sentimentos dos outros! É refrescante, numa sociedade cada vez mais repetitiva, cada vez mais homogeneamente cinzenta, ver pessoas felizes nas suas diferenças, centradas em si, sem desleixar ou amesquinhar os outros!
E depois, quase perdidos, aqui como em outros dos seus quadros, desenha-nos bocejos de vermelhos, espalhados, uma quase casualidade, o espanto incongruente de deixar o publico inquieto na suspensão inglória, de desconhecer se o vermelho é sangue de calor, de excitação, de paixão ou o vermelho sujo da brutalidade dos insensíveis mal educados! Não fosse Chagall um homem complexamente simples...

sábado, junho 18, 2011

Puberdade, 1894/5, por Edvard Munch

Não me vou deter no autor! Não é segredo que sou viciado em Edvard Munch, que considero que o pintor norueguês um dos grandes génios do século XX, que com Klimt, Magritte e Chagall mora no leito dos meus favoritos!
Neste quadro oferece-nos uma adolescente incómoda com a sua nudez, de braços caidos, cruzados, cobrindo a sua intimidade, um rosto rosado, corada perante o estorvo aborrecido de exibir o seu intimo; mas se os seios são de menina, o quadril é de mulher!
Convido o leitor à indecência de olhar o rosto da adolescente: é nítido o embaraço, um rosto fechado, inexpressivo, corrompido de duvidas, medos, angustia, a incerteza de saber que nada se sabe e ter dentro de si a urgência de fazer todas as perguntas! A cara da musa de Munch é ela própria a puberdade! 
Profundamente enigmático é a mancha negra que repousa no lado esquerdo da jovem: alguns procuram no negro encontrar um falo, um imenso genital masculino, não fosse este quadro pintado num tempo em que o genial artista estava mergulhado numa profunda depressão sexual; para outros, a sombra negra simboliza todos os medos, receios e duvidas da puberdade, os tremendos anseios da passagem da infância para a idade adulta! 
Pintado nos tons que caracterizam Munch, mais do que a puberdade em si mesma, mais que um fenómeno físico biológico datado no tempo, vejo no quadro as dúvidas que carregamos do passado, os fantasmas negros que nos acompanham no percurso, o receio da transição, de deixar um sítio, um local, uma pessoa, um emprego, para partir para outro local, para outro desafio, um despojar do passado e ter a coragem de inspirar o que o futuro nos escreve!

sábado, fevereiro 12, 2011

Guernica, Pablo Picasso

Sempre assumi a blasfémia de não ser especial apreciador de Picasso! Não tenho em reconhecer que com toda a certeza a culpa é minha, apenas minha, toda minha, serei pouco requintado, não guardo em mim a dimensão intelectual para apreciar a genialidade da sua obra, não fosse ser preciso um génio para apreciar outro!
Mas desde puto que este quadro me impressiona, desde um tempo em que não imaginava quem era Picasso nem a tragédia da dor nos corpos mutilados: recordo-me, um metro de gente, na sala de receção do meu médico - médico desde sempre e amigo como poucos - de ficar extasiado a olhar o quadro, fascinado, mas, naquele tempo como hoje, incapaz de o compreender em toda a sua bruta dimensão! 
Num cubismo perfeito, Picasso rouba a cor do quadro, mostrando-nos a crueldade suja e negra de uma cidade destruída pelas bombas loucas da tirania, a perfídia de quem tudo faz para garantir os seus mais hediondos ideias, o sofrimento, a perda, a dor de uma guerra, com uma dimensão de cruel que nunca tinha sido vista, para se repetir na década seguinte! 
Na sua guernica, Picasso evoca desde o seu exílio parisiense a Guernica destruída, juntando o seu pincel às vozes que morreram numa Espanha devassada pela liberdade e pela democracia!

sábado, fevereiro 05, 2011

O Beijo de Magritte...

... é como gosto de chamar este quadro, fingindo que ignoro que o nome do quadro é os amantes! Ou um dos amantes de Magritte!
Não gosto da conotação da palavra amantes, como se, os amantes não fossem aqueles que se amam, como se os amantes tivessem necessariamente escondidos no pecado do obsceno, presos numa teia de inverdades, falsidades, mentiras e enganos!
Prefiro ler neste quando um beijo, roubado, mas puro, singelo, ainda belo! Imagino-os de rosto escondido, coberto sobre um manto que os torna anónimos, porque este é o primeiro beijo e quando os lábios se unem pela primeira vez, estão cobertos no quente manto do desconhecido, a excitação irrepetível do inaudito, aquele mágico momento em sentimos o céu a romper-nos o peito!
Pergunto-me porque se escondem as mãos, se se afastam, ou se se entrelaçam no recato do quadro, no ocaso da tela, se se procuram na esperança de se encontrar e ficarem unidas para sempre! Ou não! Porque a personagem masculina traja as cores escuras de Magritte, um preto demasiado negro que quase indicia o luto, num contraste, com a personagem feminina que veste um vermelho forte, de paixão e de amor!
Olho o quadro o esboço um sorriso intimo, comentando comigo mesmo, se a menina de vermelho não está a ensinar o senhor sisudo as cores do amor verdadeiro...

sábado, janeiro 15, 2011

Entardecer em Karl Johan, por Munch


O expressionista Edvard Munch é inequivocamente um dos meus pintores predilectos! Aliás, a minha casa, recebe os visitantes que duas réplicas de quadros seus e, por estes dias, um outro dá cor ao meu computador! 
Não me peça explicação porque, já dizia Santo Agostinho, há coisas que sabemos mas nunca nos peçam para explicar, para mim Munch sempre foi um pintor de Inverno. Admito que a sua origem norueguesa seja parte da explicação do preconceito, mas mesmo nas mulheres de Munch - e para mim as mulheres de Munch será sempre a Madonna - apenas a consigo imaginar numa noite chuvosa de Inverno! Ou de nevoeiro! 
O erudito leitor que me desculpe, mas apenas imagino a Madonna a beber vinho perto de uma lareira quente, vermelha de fogo, como os tons de Munch; sou impotente para a imaginar a "cabritar" numa praia debaixo do calor de um sol de verão, enquanto as águas salgadas se consomem no areal!
Mas esta noite, ofereço-vos o entardecer em Karl Johan, que sendo uma das obras neófitas de Munch - a pintura é de 1892 - já nos exibe o desespero e ansiedade que sempre o acompanharam, quiçá mesmo a vida e a morte, o medo, a melancolia! 
Contemplo o quadro, debruço-me sobre a tela e pergunto-me porque a multidão se veste de preto e de caras soturnas! Mais do que isso, questiono-me, de onde foge estas multidão?! De que oculto local corre esta gente, onde esteve, o que viu, que sentiu, que se esconde nos rostos carregados e inexpressivos! Sobretudo, o que me encanta, é a personagem ao lado direito, que alheio à multidão que foge, segue o seu próprio caminho, segue a sua própria direcção, impassível à fúria silenciosa da multidão! Porque, por vezes, ter convições e certezas é seguir o nosso destino, absortos das maiores que percorrem caminhos contrários! Porque nem sempre o caminho certo é aquele que a maioria trilha...

sábado, janeiro 08, 2011

As namoradas, de Klimt


As namoradas de Klimt, surgiu na segunda metade da década de dez, portanto, nos seus últimos anos, na fase final da sua absolutamente excecional carreira! Como se ainda não tivesse cansado de chocar os seus contemporâneos, de ser carne para escárnio para os seus imensos detractores, Klimt pinta lésbicas, despindo uma delas de todos os preconceitos, bem como de roupa, desnudando-a, numa época e num tempo, em que as mulheres ainda não eram lésbicas e que não se despiam quando se amavam!
Já um pintor consagrado, Klimt despe a sua personagem e pinta-a com traços sensuais, exibindo a sua penugem feminina, num tempo em que as mulheres ainda não usavam cabelos íntimos, absolutamente insensível ao efeito que o quadro poderia produzir entre os seus!
A força da cores é absolutamente soberba nesta pintura; tons fortes, de fogo, quiçá premonitório, porquanto este quadro desapareceu quando ardeu num incêndio na década de cinquenta.
Se Klimt fosse uma cor, seria o amarelo dourado, seria pedaços de ouro plantados na tela, seria tons de girassol que nos ilumina com mais força que o sol; mas nas suas namoradas, nas lébicas de Klimt, encontramos o vermelho forte da paixão, o desejo, a cobiça; aliás, se o vermelho fosse pouco, o autor empresta-nos uma serpente, simbolismo sexual, não raras vezes de pecado, ou de pessoas de má índole na nossa cama ... mas, segundo alguns, igualmente símbolo de Cristo! Não fosse a paixão a junção do profano e o sagrado...

sexta-feira, julho 30, 2010

A noiva, de Joana Vasconcelos


Durante um ano, fui oferecendo aos meus leitores as minhas interpretações daqueles que nos olhos deste leigo, são alguns dos mais importantes quadros da história da pintura! Depois... decidi por parar, não apenas por preguiça, mas porque senti que tinha esgotado os quadros que tiveram alguma importância na minha vida, aqueles que me apeteceu reflectir sobre eles! Com a certeza que um dia voltaria a reinterpreta-los ou a vida me ofereceria razões para me encantar por outros!
Nesta noite, evoco esses tempos para partilhar consigo a Noiva de Joana Vasconcelos, datado de 2001! Não é a minha obra predilecta da artista, mas foi o primeiro trabalho que recordo dela, pelo que, mais que homenagear a obra, trago-lhes a artista!
Joana Vasconcelos, beija os quarenta anos, nasceu perto do Sena com a triste sina de ser portuguesa, sendo que, apesar deste imenso handicap é uma das mais importantes artistas plásticas da contemporaneidade, expondo a sua arte, um pouco por todos os locais, nas galerias de referência do mundo, feito quase inaudito para quem se assume como portuguesa!
A Noiva é um lustre de mais de quatro metros, que nos remete para um qualquer palácio régio, onde reis, princesas, alta nobreza e meretrizes dançam ao som da miséria que se esconde para lá do palácio, onde o povo se alimenta da fome e de miséria; mas esta é uma noiva despida de todos os luxos, de diamantes cristais ou pedras preciosas, uma noiva vestida de feminidade, de uma pureza revelada, sem vergonhas, receios ou pudores!
A Noiva da Joana Vasconcelos, como muitas outras suas obras, não se constrói de materiais nobres, mas encontra a nobreza na criatividade comovente de uma artista que ousou, ainda ilustre desconhecida, fazer este lustro com tampões! Uma homenagem bela à coragem daqueles que no pouco encontram a fortuna!

domingo, outubro 18, 2009

Starry night over the Rhone, por Van Gogh

O meu quadro predilecto de Van Gogh é a sua extraordinária noite estrelada! Por algumas das razões que deixei escritas e outras que guardei para mim! Mas não consigo resistir ao charme desta outra noite estrelada, iluminada por estrelas no céu e as lamparinas das ruas!
Porque se sou louco pelo silêncio da noite, perco-me na solidão das águas que seguem o seu percurso alheias ao seu destino!
Sinto falta das noites silenciosas onde o mar é testemunha de diálogos calados: das noites iluminadas por cigarros, em que as estrelas são cúmplices de pensamentos perdidos na noite, castelos de ar construídos de ilusões e sonhos interrompidos!
Sinto falta do azul, das noites que de escuras se transformam em claras, na clarividência que apenas a solidão nos oferece.
Olho o quadro: encanta-me a forma como o artista pinta o céu com pinceladas largas, a forma como oferece luz às estrelas, como a luz dos candeeiros morrem no rio, que insensível se dirige ao mediterrâneo! Deito o olhar sobre o casal que se esconde na parte inferior do quadro. Parecem velhos, daqueles que o tempo cansou! Algures perdidos entre a água e o nada: imagino-os silenciosos, contemplando um vendaval, despojados de tudo, cansados, fracos, com rostos de quem há muito perdeu a esperança! Mas juntos: presos um ao outro, com orgulho de um passado comum!

sábado, maio 09, 2009

Vénus ao espelho, por Rubens



Peter Rubens é um pintor flamengo, contemporâneo de Rembrandt com quem teve uma interessante dialéctica espiritual. Filho de uma família aristocrática, viveu de muito perto toda a complexa querela religiosa do século XVI.
Provavelmente o mais importante nome do Barroco, foi um artista da corte (ou de várias cortes) pintando para grande parte dos príncipes da velha Europa e para a Igreja.
Os seus quadros caracterizam-se por as suas dimensões monumentais, porquanto visavam preencher as casas senhoriais do seu tempo, numa época de arquitectura grandiosa, com salas imensas e paredes imensamente altas.
Consequências do seu sucesso, Rubens é obrigado a contratar um enorme conjunto de jovens pintores, os verdadeiros artifices dos seus quadros, deixando para o mestre a parte final, a famosa pincelada que transformava um quadro num Rubens. De certo modo, estamos perante uma espécie de revolução industrial na pintura, numa fábrica artista em que Rubens vestes as peles de estilista!
O quadro que partilho com o meu bom leitor, não será o mais representativo do autor. Mas permite-me dividir consigo as mulheres do barroco, a carne barroca das mulheres avantajadas que fazia a delicia do homem do pós-renascimento. Na tela, Venus desnuda prepara-se para um baile na corte, auxiliada pelas suas damas de companhia. Ao puritanismo da nossa era, em que a nudez é um bem apenas partilhado com a pessoa amada ou numa noite demasiado etilica, surpreende-nos que o corpo se exiba sem pudor, na sua graciosa intimidade.

sexta-feira, abril 03, 2009

Dizziness, por Iman Maleki

Iman Maleki nasceu em 1976 em Teerão e sempre foi fascinado pela pintura. Terá feito a sua aprendizagem com Morteza Katouzian o seu primeiro e único mestre.
Desconhecido do grande público e não obstante a sua terna idade e a sua naturalidade, já é considerado por muitos como o melhor pintor realista da actualidade, sendo muitos dos seus quadros verdadeiras fotografias, tal a veracidade que oferece à tela, sendo que muitas das suas pinturas se confundem com fotos.
Não é o caso do quadro que lhe ofereço este inicio de noite! Dizziness, pintado em 1988, oferece-nos uma estranha vertigem, onde os livros têm um enigmático papel.
Se numa primeira leitura os jornais são nuvens que passam, perante uma cidade que ao longe lhes é indiferente, a escuridão que cobre a cidade pode fazer-nos crer que lhe falta a luz que se poderia encontrar na Imprensa. Mas mais que os jornais, é o livro que lhe cobre o rosto que chama a atenção deste seu escriba e que oferece magia à tela.
Olhei o quadro semanas, sem compreender a função do livro; será uma fuga da realidade a necessidade de nos perdermos no romance para esquecermos a vida que passa lá longe ou o papel do livro é obrigar-nos a questionar porque a cidade se encontra pintado em tons de cinza, sem alma nem alegria?
O papel dos livros na nossa vida tem a mesma carga de mistério: por vezes sinto que temos a necessidade de ler para preenchermos um vazio de conhecimento, na incessante procura para saber mais; outras, que nas letras escritas, quando lemos as palavras dos outros, as outras vidas que nos romances se cruzam com as nossas, procuramos a estranha catarse de nos esquecermos de nós e da nossa própria vida!


sábado, janeiro 31, 2009

O beijo, de Francesco Hayez


Depois do Beijo de Klimt (aqui e aqui) do Beijo de Schiele do Beijo Toulouse-Lautrec ofereço este sábado aos meus leitores mais um beijo, in casu, de Francesco Hayez, em homenagem as lágrimas que chovem na noite, um tributo aos meus mais antigos leitores e às pinturas que partilhámos juntos.
Hayez nasceu na mais romântica cidade de Itália, marcaca o calendário o ano de 1791, tornando-se num muito admirado pintor no seu próprio tempo, considerado o mais pertinente exemplo do romanticismo histórico. Recordo o mais distraído dos leitores, que este quadro foi pintado um século antes do famoso beijo de Klimt, sendo as similitudes evidentes, nomeadamente na postura dos enamorados, onde ela sem pudor nem receio se entrega nos braços do homem que ama ou se perda na mais pura volúpia. A proximidade da escada, os tonso soturnos, o extenso chapéu que esconde o rosto do amante, permitem-nos conjurar que o casal esconde o seu amor do mundo, sendo perseguido por fantasmas reais ou imaginários.
É curioso o papel do beijo na história da humanidade, a forma com as culturas e os tempos reconhecem e avaliam o beijo, a sensação de que o beijo flutua entre a banalidade e a unicidade, como se dois beijos iguais fossem imensamente diferentes, como se a mesma boca ao dar um mesmo beijo, dê dois beijos completamente diferentes. Como os quadros: que sendo iguais, são tão diferentes...

sábado, novembro 22, 2008

Golconda, por René Magritte

René Magritte foi um pintor belga nascido no fim do século XIX para falecer no fim da década de sessenta, não resistindo em trocar a terra natal por a cosmopolita Paris para mergulhar no ambiente dos surrealistas, onde se tornou intimo de alguns dos mais proeminentes intelectuais gauleses. Após alguns trabalhos técnicos, tornou-se artista profissional na década de vinte
Este quadro entra na eternidade com o nome Galconda, baptizado por Louis Scutenaire, amigo de Magritte, em homenagem a uma maravilhosa cidade indiana que conheceu o esplendor e esbarrou na miséria. Acho a tela fascinante e timidamente confesso que é um caso de paixão à primeira vista. E como todas as verdadeiras paixões, não conseguimos explicar a razão do seu encanto.
Convido o meu bom leitor a questionar-se sobre a razão pela qual os homens de Magritte aparecem suspensos no ar, quiçá elevando-se a caminho do esplendor ou, pelo contrário, numa verdadeira chuva humana, de homens que penosamente caminham para se estatelarem no chão. Todos iguais. Com vestes iguais. Roupas escuras. E com indiferentes chapéus de coco! Como se todos fossem apenas um…
A multidão de Magritte faz-se de homens iguais, uma multidão de um homem só, que se esconde no meio de outros homens iguais, com roupas que lhe permitem viver na penumbra, esquecido dos outros, para se conseguir esquecer de si. A multidão de Magritte é uma multidão de homens anónimos, que se esforçam para passar indiferentes, um perdido no meio de todos, numa praça que fica vazia por estar cheia de pessoas iguais. Como algumas cidades. Como algumas pessoas…


sábado, novembro 01, 2008

As grandes banhistas, por Renoir


Renoir nasceu em Limoges em Fevereiro de 1841, mudando-se em petiz para Paris, na esperança do conforto material que a terra mãe era madrasta. Filho de uma família de classe média baixa, fez os catorze anos a trabalhar numa fábrica, onde deu as primeiras pinceladas em artigos de porcelana. Apenas com 21 anos, quando ingressou na Escola de Belas Artes teve possibilidade de transformar o seu jeito num verdadeiro talento, deixando para trás o destino de artesão, para conquistar a eternidade como artista.
Renoir conquistou o prestígio que o acompanhou na vida e eternizou na morte, como impressionista. Confesso, na intimidade do post, que me falta a arte para ser um apreciador do impressionismo. Diz-me um sábio amigo, que impressionismo é a musica clássica da pintura, desdenhando do meu fervor surrealista, classificando-a como a musica popular da tela. Admito que sim, mas envergonhado assumo que me falta a perícia para reconhecer no enublado traço impressionista, a mais erudita das artes plásticas!
Sempre me pareceu que Renoir é um pintor de Inverno. Estou ciente que a afirmação supra é uma mega tolice, mas para estes olhos não eruditos, sempre achei que os quadros de autor repousariam perfeitos nas paredes claras de uma casa perdida no verde das montanhas, daqueles com um imenso terraço com vista para a imensidão, recolhidas pelo calor cor-de-laranja de uma lareira a crepitar ao canto de uma sala, onde sentados, homens fumam charutos e deliciam licores. Com as mulheres, na sala ao lado!
Nesta noite fria, partilho com o meu leitor “As grandes Banhistas”, um quadro pintado com cores quentes, onde com uma nítida conotação erógena, Renoir retrata cinco ninfas nas margens de um rio, num banho conjunto onde partilham a intimidade feminina. Corresponde ao período Ingresco do autor, fortemente marcado pela cultura italiana na época, influenciada pelo regresso às origens, o apego à mitologia clássica. Deveria sublinhar que na paisagem distante, se compreende que Renoir ainda não tinha despido completamente as vestes de impressionistas, mas, sadicamente, prefiro sublinhar a atenção do meu leitor, para a representação da ideal de beleza feminino, num tempo em que a anorexia era doença e a gordura era a suprema formosura!

quinta-feira, outubro 16, 2008

O menino da lágrima

Sempre me fascinou este quadro. Confesso que não me recordo concretamente onde, mas tenho a quase certeza que algures numa parede que me acolheu, esta pintura imponha-se ao branco da cal. Cometo mesmo a imprudência de confessar que numa fotografia minha que virou pintura, reconheço o mesmo rosto o mesmo olhar.
Sem certezas, vou atribuir a pintura a Franchot Seville, que terá ficado conhecido por Bragolin, provavelmente de origem espanhola (embora se especule que possa ser italiano ou brasileiro).
O quadro está envolto em profunda controvérsia e misticismo: desde logo, esta será uma de quase trinta versões onde são retratados petizes, de parcos recursos, órfãos ou abandonados, que carregam no rosto e olhar as tristezas de uma vida.
Especificamente sobre este quadro, o grande mistério é saber quem é o menino. Apesar de existir a tese de que o retratado é português, Rogério por baptismo, sou apologista da tese mais catastrófica, que reza ser o menino um órfão madrileno, que perdeu a família após um incêndio, comovendo Bragolin que após o retratar, acolheu-o como filho.
O Padre da paróquia procurou demover o pintor da intenção de o receber em sua casa, alegando que o menino atraia o azar, um prenúncio de desgraça, sendo conhecido por El Diabo. O pintor, que vivia de forma abastada da sua arte, foi surdo aos rumores e criou-o como o filho que desejara, sendo a felicidade interrompida por… um incêndio que lhe destruiu o atelier e lhe queimou a fortuna. Reza a lenda que após o infortúnio, Bragolin deixou de conseguir vender os seus quadros, conhecendo o lado negro da miséria. Vagueou pelo mundo conduzido pelo adversidade, sem rumo nem destino, numa vivência miserável que o levou ao desespero: perdido, Bragolin terá feito um pacto com o Diabo, em que vende a sua alma em troco da venda de quadros. E foi bem sucedido: este quadro, em que o menino das lágrimas exibe o olhar de Gioconda, seguindo-nos…
Pergunta-me o bom leitor, qual o trato do pintor com o Diabo? Pois bem! Segundo rezam as crónicas, a pintura está plena de mensagens subliminares, encarna o mal e carrega consigo o infortúnio do autor, oferecendo desgraça àqueles que o possuem…

sábado, julho 26, 2008

Coisas - Parte QUATRO: O Beijo de Klimt

Neste sábado, era obrigatório revisitar Klimt, expor aqui o Beijo, de todos, o meu quadro predilecto!

Pergunta-me o paciente leitor que acompanha estas miseráveis divagações de fim de Julho, porque amo o Beijo de Klimt? Não lhe sei responder: há coisas que extravasam a razão e os sentidos, que nos atacam sub-repticiamente como um sorriso, que nos confundem e desarmam, por vezes até nos ofuscam, deixando-nos encantados antes de perceber o como e o porque!

Podia maçar o meu bom leitor, repetindo frases feitas sobre a excelência do artista ou com misantropas teorias fantásticas sobre beijos!

Quiçá fosse eloquente neste post tão especial, rebater aquele mito de que as pêgas não beijam, invenção hollywoodesca pela tela da deslumbrante Júlia Roberts, deixar testemunho escrito, que sem nunca pagar meretriz, encontrei pegas que beijam, da estirpe mais perigosa, daquelas que nada cobram! E que oferecem os seus corpos, que gritam pulam e guincham, quase acreditando nas verdades das suas mentiras. Ou na ilusão de um castelo de sonhos, resistente como um baralho de cartas, cartas de jogar, não as cartas de amor que o amor se perdeu no tempo!

E onde reside o Beijo de Klimt no meu de tão tolas divagações, inquire-me o mais atento dos leitores, atónico com perturbantes devaneios. Pois bem: o beijo é o resido da verdade, o núcleo único da clarividência, quando as palavras parecem mentir, o olhar perdeu a transparência, quando os gestos faltar à verdade e os actos confundirem-se no limbo da falsidade…

Quando tudo é baço e parece mentir, quando o mundo nos arrasta na confusão dos medos e da incerteza, apenas no beijo encontramos a certeza forte da esperança, num encontro com volúpia dos lábios o caminho para o sorriso, a junção de lábios que se desejam, mais do que na entrega dos corpos, descobrimos a pureza dos nobres sentimentos, respostas para quixotescas inquietações, que nos arrastam e consomem, para que no instante mágico de línguas que se tocam, deixarmo-nos perder no enamoramento puro dos amantes perdidos!

Sim, porque Beijo, seja de Klimt, de Schiele de Rodin ou de uma qualquer trolha marmeleiro é o ultimo resquício da verdade, o momento sublime, a conjugação divina onde os amantes se fundem num só, para percorrerem juntos um só caminho, sem medos, receios e preconceitos, guiados pela certeza de um beijo!

Fala-se muito do primeiro beijo, mas tememos perguntar qual o melhor dos beijos, que raramente terá sido o primeiro! Disseram-me um dia que o melhor de todos os beijos foi o ultimo: nunca desisti de acreditar que o melhor beijo estará algures por aí, num qualquer futuro próximo ou longínquo! E não será as nossas vidas um complexo caminho, com avanços, recuos, medos, cobardias e actos heróicos, na incessante procura do Beijo perfeito? Perfeito como o beijo de Klimt, o ultimo quadro que aqui se comenta!