Quando por duas vezes no mesmo ano, milhares de professores se deslocam a Lisboa para se manifestarem contra a Ministra da Educação, é bom senso reconhecer que a classe docente está genuinamente ofendida com a Ministra. Importa reconhecer que nos últimos anos os funcionários públicos foram os principais prejudicados na luta contra o famoso deficit e que algumas alterações legislativas defraudaram as legitimas expectativas destes profissionais, que se sentiram atacados em alegados direitos que pensavam adquiridos!
Por detrás destas mega manifestações, não estão apenas interesses políticos nem a sagacidade de sindicatos que pretendem nas ruas o que os seus partidos perderam nas urnas: esta luta tem na sua base o genuíno descontentamento da larga maioria de uma classe profissional, profundamente descontente com a Ministra. E com legitimas razões de queixa!
Assumido isto, faço-me a pergunta que muitos outros me fazem: porque insisto na defesa desta Ministra, criticada pela quase totalidade do País? Acredite, meu caro ouvinte, que não me move nem o espírito de contradição nem estou imbuído de vil teimosia!
Sou funcionário público e, como tal, faço parte daqueles cujas expectativas foram defraudadas nos últimos cinco anos: por dois anos não tive direito a aumento de vencimento e convivo desde há três com o estigma das carreiras congeladas, impedindo uma promoção que achava ter conquistado por direito e trabalho próprio! Mais. No caso específico do Ensino Superior, sofremos na pele a confusa implementação de um obscuro processo de Bolonha, misturado com sucessivos cortes orçamentais e sub-financiamento que estão a estrangular o funcionamento de Universidades e Politécnicos, com prejuízo de alunos e docentes. Pelo que fica exposto, se me limitar a olhar para o meu umbigo, tenho um imenso rol de razões para culpar este e o outro Governo!
Mas não acho que devemos limitar-nos a olhar para o nosso umbigo; cingindo-me à causa da educação, importa recordar que a primeira função da Ministra não é garantir os direitos dos professores, mas tutelar os interesses dos estudantes. Se insisto em defender a Ministra da Educação de um Governo que me tirou dinheiro do bolso, se cometo a blasfémia de afirmar que Maria de Lurdes Rodrigues é a melhor Ministra da Educação do Portugal democrático, deve-se ao facto de estar convicto que as suas principais bandeiras, são marcos de cidadania e vão mudar para muitíssimo melhor o ensino que se pratica hoje em Portugal: não ignoro que os professores não gostam, mas as aulas de substituição, a avaliação dos professores, as avaliações das escolas, a divisão da carreira, a estabilidade na carreira com contratos a 3 anos e as aulas com tempo integral, são medidas cruciais, ponderadas e muito necessárias!
Sou o primeiro a compreender que defender esta Ministra no actual contexto é uma enorme tolice: obviamente que nem a Ministra nem o seu partido me agradecem e as minhas posições melindram pessoas que estimo, professores que admiro, que se sentem ofendidos pela minha incompreensão, dos direitos de uma classe, da qual me sinto parte! Mas escolho não me calar: porque se a democracia é a vontade da maioria, isso não significa que todas as maiorias sejam donas da razão! E com magníficos professores que tive, que muito estimo e admiro, aprendi que colocar os meus interesses pessoais acima dos interesses gerais é um egoísmo inaceitável! E é em homenagem a estes professores, que me assumo contra a luta dos professores…